Já em outra crónica escrevi sobre São Lourenço e tentei abordar as razões, ou factos, que terão levado a ser o patrono dos cozinheiros. Veremos como S. Martinho se liga à tradição do vinho novo, e ao conceito do Verão de S. Martinho que mais não é do que uns poucos dias ensolarados de Novembro.
Esta crónica estou a escrevê-la em homenagem à Irmã Lúcia, da Casa de Santa Clara em Bragança, das Servas Franciscanas Reparadoras de Jesus Sacramentado, que recentemente encontrei, por razões tristes, e me fez ter saudades da minha infância. Apesar do meu percurso emocional me ter levado a assumir-me como agnóstico, a Irmã Lúcia representa um período de alegria e felicidade tão bem marcado que, depois destes anos, não a vejo como uma mulher da Igreja mas como uma pessoa boa e que me ajudou a crescer. E com valores. E que agora me deu a alegria de poder ter um São Lourenço em minha casa.
São Martinho, conhecido por São Martinho de Tours, nasceu em Panonia supostamente no ano de 315 dC mas foi educado em Pavia agora Itália. O seu nome, em latim, significava que vinha de Marte, quereria dizer aquele que faz a guerra contra os pecados e os vícios. Sendo filho de um oficial romano que serviu os Césares Constantino e Juliano, cedo lhe foi destinado um futuro militar. Acontece que com a idade de doze anos, e por iniciativa pessoal e contra vontade dos pais, foi à igreja e pediu para ser considerado catecúmeno. A partir deste acto tentou isolar-se numa ermida e apenas regressou por fragilidades de saúde.
Quanto atinge a idade de quinze anos, e por decreto do imperador romano que obriga todos os filhos de veteranos, é forçado a alistar-se no exército. Aqui começa a revelar-se diferente dos seus parceiros. Aceita ter apenas um servidor e ao qual, ele próprio, limpava o calçado. Mas mais graves eram as suas emoções pois vivia na contradição de fazer o bem e pregar a sua nova Fé, em oposição à rudeza e crueldade das actividades militares.
Ora é durante o seu período de serventia militar que surge o mais apregoado gesto daquele que viria a ser o São Martinho. Cavalgando cerca da sua guarnição militar, perto de Amiens, com o seu uniforme e coberto por uma capa encontra um pobre semi - nu que lhe pede esmola. Sendo Inverno, estando frio, e não dispondo de outro bem, com a sua espada corta metade da capa e dá-a ao mendigo para se agasalhar. Nessa mesma noite terá sonhado com Jesus Cristo que estaria coberto com esse pedaço de capa. Será este sonho que lhe iluminará o resto da sua Vida. Considerando este sonho como um chamamento, pede para ser baptizado e solicita ser liberto do seu compromisso militar.
Foi baptizado por uma figura ilustre da Igreja, Santo Hilário de Poitiers, e regressa à sua origem, em Panonia, onde converteu a sua mãe e outros familiares. Torna-se discípulo do seu padrinho de baptismo e segue-o pela Europa até que em 360 decide fundar o seu próprio mosteiro em Ligugé. Doze anos mais tarde é eleito bispo de Tours por aclamação de assembleia de clérigos, e do povo, pois a sua fama de bondade, e prática de vida, serem um exemplo. Muitos milagres já lhe eram atribuídos.
Apesar de bispo de Tours fundou o mosteiro de Marmoutier, onde vivia. Dedicou a sua vida à pregação visitando as populações e em 388 vai a Roma onde fundou um centro religioso. Faleceu em 397 em Candes e foi a enterrar numa Basílica em Tours em 11 de Novembro. Foram-lhe atribuídos variadíssimos milagres. A partir dessa data expandiu-se a sua veneração em especial na França, Alemanha, Espanha e Portugal. É ainda venerado na Argentina e Croácia. O documento mais importante sobre a vida de São Martinho foi escrito por Sulpice Sévère, seu discípulo, que o apresenta como o décimo terceiro apóstolo. Este livro teve um sucesso invulgar para a época atendendo à raridade dos respectivos exemplares copiados, e manteve-se a sua distribuição até finais da Idade Média.
São Martinho é sempre representado fardado de militar, a cavalo, com uma capa vermelha e empunhando uma espada com a qual corta a capa para ajudar a cobrir o pedinte. Grandes pintores o representaram sendo a obra mais famosa o quadro pintado por El Greco (1597-1599) e exposto na National Gallery de Washington.
Tradicionalmente São Martinho é considerado protector dos militares, alfaiates, produtores de vinho e estalajadeiros.
Ora interessa-nos saber porque São Martinho é o protector dos estalajadeiros (hotéis, albergues, pensões e restaurantes), e como chegamos ao Verão de São Martinho. Não havendo restaurantes ou estabelecimentos apenas destinados à alimentação, as estalagens ou hospedarias todas dispunham de salas de refeições e que, naturalmente, vendiam vinho.
Comecemos pelo Verão. Não encontrei em nenhuma biografia a resposta directa ao tradicional Verão de São Martinho. Há, no entanto, uma tradição por via oral que conta a lenda respectiva. Consta que por questões de disciplina militar, quando São Martinho chega às instalações do seu quartel, com a farda danificada (capa cortada e reduzida a metade) terá sido punido. E a punição terá sido a sua exposição, nu, na parada do quartel. Estávamos no Inverno. Ora, por coincidência, nesses dois dias de punição há uma alteração climática e surgem dois dias de Sol que aliviaram o possível sofrimento do militar punido. Seria a primeira intervenção divina? Ou estaremos apenas perante coincidências climáticas surgidas posteriormente? Há lendas que encaixam bem, e nos sabem bem. Uma boa estória para contar!
Encontramos, no entanto, no Missal de Dom Gaspar Lefèvre a seguinte transcrição: “São Martinho é o primeiro dos Santos não Mártires, o primeiro Confessor, que subiu aos altares do Ocidente (…). A sua festa era de guarda e favorecida frequentemente pelos dias de “verão de S. Martinho”, rivalizando, na exuberância da alegria popular, com a festa de S. João.”
Por este escrito podemos retirar a importância que a festividade de São Martinho detinha já no passado e de entre os Santos da Igreja também pelo facto se sei o primeiro não mártir. Continuamos, contudo, sem o registo da origem do Verão de São Martinho. Será que estamos, e apenas, perante uma coincidência de bom tempos alguns anos sucessivos, durante as celebrações do 11 de Novembro?
As expressões populares viram-se para a época de abertura do vinho novo: “No São Martinho vai à adega e prova o vinho”.
Segundo o etnólogo Veiga de Oliveira: “O S. Martinho, como o dia de Todos os Santos, é também uma ocasião de magustos, o que parece relacioná-lo originalmente com o culto dos mortos (…). Mas ele é hoje sobretudo a festa do vinho, a data em que se inaugura o vinho novo, se atestam as pipas (…). As pessoas dão aos festeiros, vinho e castanhas. O S. Martinho é também ocasião de matança de porco.”
As tradições mantêm-se independentemente do seu início de cariz religioso. E não há festa sem comida com seus exageros e nesta festa o vinho também. A acompanhar as castanhas, produto que vai de base e popular a alto emblema gastronómico, à jeropiga. A festa é do vinho novo. Vejamos alguns exemplos de ditos, ou provérbios, populares:
“Em dia de S. Martinho vai à adega e prova o vinho”
“Martinho bebe o vinho, deixa a água para o moinho”
“Em dia de S. Martinho, come-se castanhas e bebe-se vinho”
“No dia de S. Martinho, mata o porquinho e abre o pipinho”
“Pelo S. Martinho castanhas assadas, pão e vinho”
Para terminar uma quadra do poeta transmontano Eurico Fragão:
Este líquido entorpecido
É amante e namorado,
Tem sabor do rio Douro
E cheira a cravo encarnado!
Aprendam a beber com moderação. O vinho não serve para matar a sede. O vinho equilibra e ajuda a que a comida nos saiba melhor.
Bom Apetite!
© Virgílio Nogueiro Gomes